A morte é considerada uma das únicas certezas da vida, mas falar sobre a finitude ainda é tabu. Nesse contexto, ganha espaço no Brasil a doulagem da morte, prática que oferece acolhimento a pessoas em fase terminal e familiares durante o luto. Em Piracicaba (SP), a professora de ioga e terapeuta integral Silvia Onofre decidiu seguir essa atividade após perder o pai, vítima de câncer, e o cunhado, de 36 anos, em 2017. Atualmente, Silvia realiza atendimentos individuais, retiros sobre finitude, grupos de apoio ao luto e funerais simbólicos. A doula da morte acompanha pessoas e famílias diante do processo de morrer e das perdas, oferecendo escuta, presença, apoio emocional e cuidado. O trabalho, porém, não substitui o atendimento de médicos, enfermeiros e profissionais de cuidados paliativos. A atividade ainda não é regulamentada no Brasil e permanece pouco conhecida. Existem cursos livres de formação, que abordam finitude, luto, escuta e diretivas antecipadas de vontade. Após mais de dez anos trabalhando na área administrativa escolar, Silvia fez sua formação em 2025. Ela explica que a doulagem também ajuda as pessoas a refletirem sobre a própria vida e a se prepararem para a morte. O acompanhamento pode incluir decisões práticas, como escolha do caixão, organização do velório, documentos, cerimônias e cartas destinadas aos familiares. Também envolve apoio no luto antecipatório e após a morte. A terapeuta trabalha ainda com perdas simbólicas, como separações, demissões e aposentadorias, utilizando escuta, massagens, aromaterapia e ioga.
Uma das pessoas atendidas foi a professora Rafaela Pereira Santos, de 38 anos, que procurou Silvia após perder o emprego. A experiência de um retiro sobre finitude a ajudou a enfrentar a mudança profissional e reorganizar seus planos. Durante o acompanhamento, Rafaela também conseguiu elaborar a dor pela morte do primeiro filho, Lourenço, ocorrida 11 anos antes. Como não pôde participar do velório e do sepultamento, realizou uma cerimônia simbólica de despedida. Outro atendido foi Kelvin Jones, de 26 anos, que procurou ajuda dois meses após a morte da mãe, vítima de um câncer raro. Segundo ele, o acolhimento e as técnicas corporais ajudaram a enfrentar a ausência e reorganizar a rotina. O psiquiatra Arthur Cardoso considera que o acompanhamento pode contribuir para uma morte digna, respeitando a história e o legado do paciente, além de reduzir possíveis sentimentos de culpa entre familiares. Já o médico Lucas Fernando Zorzetto ressalta que equipes multiprofissionais de cuidados paliativos oferecem assistência física, emocional, social e espiritual aos pacientes e familiares. Para ele, médicos, enfermeiros, psicólogos e outros especialistas já desempenham papel fundamental nesse processo. A doulagem pode ser compreendida como uma forma complementar de acolhimento diante da finitude e do luto.



